Todo dia era dia do índio

No dia 22 de abril do ano de 1500, quando a esquadra cabrália aportou  sem querer no Brasil, os autóctones somavam por volta de 5 milhões. Eram tribos pertencentes a vários povos. Cada um com sua língua, com sua crença e seus rituais. Cada povo com sua mitologia e hábitos culturais diferentes. Estes povos habitavam  várias regiões do Brasil, dos litorais até o centro e o norte das terras que hoje formam o nosso país. Do inicio da deflagração da colonização até os dias de hoje, mais de 4 milhões de indígenas desapareceram. Tribos inteiras foram massacradas em nome do progresso  e do desenvolvimento.

Nas comemorações dos 500 anos de Brasil, esteve aqui um grupo de intelectuais portugueses e, segundo eles, o que aconteceu aqui não foi o descobrimento, mas sim um achamento, uma vez que as terras daqui já eram habitadas por povos de outras culturas e, após o achamento, os portugueses partiram para o descobrimento das riquezas que por aqui haviam, iniciando assim o processo de extinção de muitos povos indígenas.

Quinhentos e quinze anos depois da invasão portuguesa, os nossos irmãos indígenas continuam sendo vítimas da violência do homem branco dominante, que aqui se instalou impondo à força sua cultura, seus costumes e sua religião .

No Brasil inteiro os indígenas são  vítimas de discriminação, do preconceito contra seus hábitos e costumes, e, principalmente da violência física. Pois índios de todas as tribos estão sendo mortos, quando não por pestes ou doenças comuns, são assinados por pistoleiros de aluguel a serviço de grileiros e posseiros que invadem as suas terras.

Exemplo mais gritante é o dos Guaranis-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, que foram expulsos de suas terras, se transformaram em indigentes acampados em barracos de lona plástica à beira das estradas.
Grandes empresas brasileiras e estrangeiras ligadas ao agronegócio, que costumam receber homenagens em salões nobres dos três poderes da República, fazem uso de aviões na aplicação de agrotóxicos cancerígenos, que  causam mal não somente as pessoas, mas também envenenam rios, plantas, mortandade de peixes e das colméias, pondo em risco a sobrevivência dos povos da floresta.

Apesar de alguns esforços, a sociedade brasileira ainda não consegue olhar para os índios e enxergá-los como seres humanos em sua plenitude. Ainda nos dias de hoje há missões coordenadas por diversas igrejas ,que a pretexto de ajudar os índigenas, na verdade trabalham para convertê-los ao cristianismo,destruindo a cultura e a história desses povos.

Mas o grande golpe sobre os povos índigenas está sendo preparado por vias oficiais. Há na Câmara dos Deputados uma proposta de emenda constitucional, a PEC 215, que propõe que as demarcações de terras índigenas e quilombolas passem a ser determinadas pelo poder legislativo e não mais pelo poder executivo como está na Constituição Federal, como determinou o poder Constituinte.
Parlamentares ligados às bancadas da bala, do boi e da bíblia se mobilizam e articulam a aprovação da tal PEC.

Caso esta proposta vire Lei, será um golpe fatal sobre os povos índigenas e quilombolas, pois qualquer demarcação de terra passará pelo Congresso onde estes contam com poucos aliados. A bancada ruralista quer confinar os índios num menor espaço de terra possível, passando por cima de tudo o que estes povos cultivam como sagrado, inclusive o apego a suas terras.

Eu, daqui do meio urbano me solidarizo com os índios e quilombolas nesta luta quase quixotesca, mas justa, pois a sociedade brasileira não pode continuar fazendo de conta que o problema não existe. Não podemos ficar caracterizando de índios as crianças só no dia 19 de abril, mas lutar ao lado desses povos na preservação de seus valores, de sua cultura e acima de tudo preservar suas vidas e, num futuro não muito distante  comemorar o dia do índio o ano inteiro.

Autor: Ivam Galvão

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