Um péssimo conselheiro

É impossível falar de política nestes últimos dias sem falar sobre as manifestações dos dias 13 e do dia 15 de março. Convocada por sindicatos e setores da base social do governo. Embora qualitativa o número de participantes foi bem aquém do esperado Já a do dia 15, no domingo, reuniu em todo Brasil centenas de milhares de pessoas. Em comum entre as duas manifestações é que, segundo o instituto Datafolha, cerca de 85% dos presentes nestas estavam la pelo fim da corrupção.

Apesar das divergências  entre a PM, os organizadores e o Datafolha em relação ao número de participantes, a verdade é que em todas as capitais as principais avenidas estavam coalhadas de gente vestidas de verde e amarelo, sendo a grande parte pertencentes à classe média brasileira, o que não desqualifica a manifestação.

Em São Paulo talvez a manifestação do dia 15 tenha sido mais emblemática, desde da eleição da presidente Dilma Rousseff, setores da classe média vem demonstrando seu descontentamento com o PT e com a presidente. Este descontentamento era visível a julgar pelas palavras de ordem escritas em faixas e cartazes. “ FORA DILMA”, “ IMPEACHMENT  JÁ” e “FORA PT”, além de pequenos grupos que sustentavam faixas pedindo a intervenção militar.

Depois da vitória eleitoral de Dilma Rousseff e consequentemente a derrota de Aécio Neves, uma avalanche de mensagens preconceituosas  circularam pelas  redes sociais. Ataques contra nordestinos  foram os mais frequentes. Inegavelmente, a derrota de Aécio Neves criou um certo mal estar entre a classe média paulista e paulistana.

Numa análise isenta de paixões ou viés ideológico, fica fácil perceber  o ódio que se espalhou contra o PT e contra a presidente Dilma. As pessoas não falam em um novo projeto de Brasil, só falam em tirar o PT e a presidente Dilma do poder. A vitória de Dilma criou um ressentimento na classe média brasileira.

O ressentimento se espalhou e virou ódio. Segundo Nietzsche, o ressentimento decorre da incapacidade  de interagir  adequadamente com os signos da diferença e com os antagonismos, de modo que quando marcados pelos transtornos tendemos a transferir a responsabilidade de um acontecimento para uma determinada causa externa. O ressentido atribui  a outrem responsabilidade pelo que o faz sofrer, a quem delega num momento anterior o poder de decisão, de modo a poder culpá-lo caso venha fracassar. É o retorno do desejo de vingança sobre o eu.

A classe média brasileira nunca assimilou o fato de um operário metalúrgico, ser eleito presidente da república e, depois de dois mandatos  consecutivos, eleger  e reeleger uma mulher como sua sucessora.

Apear de Dilma ter sido eleita democraticamente, aqueles que votaram em Aécio, receberam o resultado como uma  verdadeira ofensa, criando no  intimo dos indivíduos o anseio por uma reparação imaginária motivada pelo desejo de vingança. Talvez resida aí o motivo das faixas “ Fora Dilma”, “Fora PT” e “ Impeachment já” e a volta dos militares.

Claro que o governo  Dilma não começou bem, mas a presidente foi eleita e devemos respeitar o resultados das urnas. Devemos sim, cobrar nas ruas o fim da corrupção, exigir a punição dos  culpados, cobrar uma reforma política  que esteja em sintonia com os eleitores, exigir um comportamento ético condizente com os valores republicanos de todos os políticos e, acima de tudo defender a democracia.

Aos odiadores só um lembrete; o ódio não atinge o odiado, só faz mal para quem odeia. Assim, vamos substituir o nosso ódio pelo amor. Amor à pátria; amor  à justiça; amor pelo nosso semelhante; amor pela família e amor a Deus. Assim talvez consigamos construir um país melhor para deixá-lo como herança para as futuras gerações, pois o ódio é um péssimo conselheiro.

Autor Ivam Galvão.


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