Da Democracia que temos para a Democracia que queremos

Na década de 70, o então senador André de Franco Montoro, lanço o livro cujo o título era " Da democracia que temos para a Democracia que queremos".

No livro, Montoro debatia a situação daquele momento, criticava sutilmente a ditadura, e dizia que a democracia era o único caminho possível para o desenvolvimento do Brasil. E também dizia que não poderia haver democracia se  esta não viesse acompanhada de justiça social.

Este livro ficará para sempre  em minha memória, não pelo seu conteúdo. que me lembro muito pouco, mas pelo fato que me aconteceu por estar carregando o livro na bolsa.

Num dia de abril de 1974, saí de casa pela manhã para vir até o centro da cidade de São Paulo onde deveria encontrar um amigo para irmos juntos à Assembleia Legislativa de São Paulo. Desembarquei do trem na estação do Brás e quando me dirigia ao ponto de ônibus no Largo da Concórdia, fui parado numa batida policial.

O soldado que me abordou pediu meus documentos, e após verificá-los pegou o meu livro de dentro da bolsa, leu o título do livro, abriu, e ao folheá-lo encontrou um pequeno papel com um nome, do qual já nem me lembrava de quem era. Imediatamente o soldado chamou o oficial que comandava a operação, um segundo tenente, negro, este fez algumas perguntas preliminares e me conduziu até o distrito policial, que ficava no Parque Dom Pedro II, onde fiquei detido por uma semana, numa sela suja e fedorenta. Motivo: em pleno período ditatorial ler um livro que falava de democracia, palavra que os agentes da ditadura não gostavam nem de ouvir falar. Nunca mais me esqueci do lamentável episódio.

De lá pra cá as coisas mudaram. A ditadura caiu, Montoro morreu, e  após tanta luta ainda não atingimos o estagio que almejávamos há quarenta anos atrás. Apesar da promulgação da constituição cidadã de Ulisses Guimarães, a estrutura política do regime da ditadura foi mantido e muito do chamado entulho autoritário ainda permanecem, obstruindo o caminho para o aperfeiçoamento das instituições democráticas.

Diante da crise de representatividade que se instalou no país é urgente que se faça uma reforma política.É consenso entre; cientistas políticos, analistas, partidos de vanguarda, associações de classes, sindicatos etc que os políticos que se beneficiam do atual sistema eleitoral não farão as reformas políticas que mecham na atual estrutura de poder.

A partir do dia 1 até o dia 7 de setembro, entidades da sociedade civil organizada, estarão nas ruas, igrejas e praças realizando o plebiscito popular, perguntando a população se esta quer a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte, com a finalidade exclusiva de fazer as reformas políticas.

Atualmente no Brasil vivemos num sistema democrático, mas precisamos avançar mais. Precisamos garantir o acesso à justiça à população mais pobre, precisamos pensar em um novo modelo de representação política, e pensar um grande modelo de desenvolvimento para o país. Mas, qualquer mudança mais profunda e séria passa pela reforma política.

A democracia que temos nos garante votar para os cargos do executivo e legislativo, nos permite protestar nas ruas, nos permite reunir em partidos e associações e sindicatos, mas a democracia que queremos é a que nos permita tudo isto e, nos traga mais igualdade social e garanta maior participação popular. Ah! e tem mais, que nenhum oficial ignorante prenda alguém só por portar um livro que ele nunca leu!

Autor: Ivam Galão





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