A vida sem retoques

Seu Raimundo e dona Zefinha junto com seus sete filhos deixaram a cidade de Serra Talhada no interior do Estado de Pernambuco e rumaram para São Paulo. É mais uma família de retirantes da seca que há anos castiga o sertão e rouba a esperança do povo sertanejo.

A família foi morar em Francisco Morato, pequeno município da região metropolitana de São Paulo, onde com o pouco dinheirinho que sobrou após a venda de algumas cabras e umas poucas cabeças de gado seu Raimundo conseguiu comprar uma pequena casa para morar com sua família.

Apesar das dificuldades, seu Raimundo e os três filhos mais velhos logo conseguiram emprego. As meminas frequentavam a escola, a mais velha, Lindalva ajudava a mãe nos afazeres domésticos, Cícero trabalhava como balconista num bar próximo de casa. Já o mais novo, Cremilson não trabalhava nem estudava, desde muito novo tinha  problema; vivia sempre calado, não ria nunca, comia sempre no quarto e não tinha amigos. Tinha 14 anos não sabia ler e nem escrever, todas as tentativas de colocá-lo na escola foram em vão. Quando saia de casa se enfiava num mato que havia próximo ao bairro em companhia do cachorro Peri.

Ao lado da casa de dona Zefinha morava dona Zenaide, mulher viúva, moradora antiga do lugar, daquele tipo de vizinha que ajuda a todos os que para alí se mudam e com dona Zefinha não foi diferente, ao ver o caminhão chegando com a mudança, dona Zenaide já foi logo se colocando a disposição da nova vizinha, não demorou muito as duas ja tinham se tornado grandes amigas.

Dona Zenaide cuidava do neto Rafael, de sete anos , sendo a mãe  nora de dona Zenaide e tivera o marido morto assassinado numa briga num campo de futebol, este o filho mais novo de dona Zenaide. Viviam com dificuldades,mas mesmo assim eram muito solidárias.

Certa sexta-feira, logo após o almoço, dona Zenaide chamou o neto Rafael para aprontá-lo para ir à escola. Chama...chama...chama e nada do neto responder. Dona Zenaide vai até a casa da vizinha procurando pelo neto  e nada, vai até o campinho de frente a rua e nada. Começa a ficar preocupada.

As horas passam, já não dá mais para o menino ir para a escola, já passa das 4 horas.
Dona Zenaide apavorada sai pelas casas da vizinhança a procura de Rafael, mas tudo em vão. Ninguém tinha visto o menino. O desespero toma conta de dona Zenaide.

Imediatamente os vizinhos formam grupos para  a busca de Rafael, que vestia um calção vermelho e uma camiseta azul, carregando nas mãos um cachorrinho de pelúcia.

Logo alguém teve a ideia de procurar ali pelo mato, nas imediações.Procura daqui, procura dali...de repente a cena.. o menino Rafael é encontrado morto, com o calção abaixado, com um saco plástico enfiado na boca.

Após avisarem dona Zenaide da tragédia, um grupo sai pelo mato a dentro em busca do provável assassino.

Poucos metros a frente alguém grita...encontrei o bandido… De imediato formou-se um grupo armado de paus, facão e até foice, ninguém sabe quem deu o primeiro golpe, mas o suspeito fora trucidado, morto com vários golpes de pauladas.

A policia foi chamada, la estava um corpo todo esfacelado, ao ser identificado era Cremilson, estava com o cachorrinho de pelucia de Rafael na mão, fora ele sem duvida, diziam os vizinhos.

Dona Zefinha e dona Zenaide não se conformavam. Uma perdera seu único neto, do qual cuidava com muito amor e carinho, a outra perdeu  o filho, ambos mortos de forma violenta e brutal. A amizade entre as duas agora ficara estremecida pela tragédia.

Dona Zefinha chorava o tempo todo repetia sempre que seu filho fora morto inocente. Seu Raimundo, homem duro lá do nordeste dizia - Deus que me perdoe, mas se ele fez aquilo com o menino… e não terminava a frase.

Passado seis meses outro menino é encontrado morto nas proximidades do mesmo jeito. A policia que vinha trabalhando duro nas investigações logo prendeu o assassino. Era o açougueiro do bairro, que já havia cumprido pena por estupro e assassinato de outros dois meninos na cidade de São José dos Campos.

O adolescente Cremilson fora morto injustamente só porque havia achado o cachorrinho de pelúcia de Rafael e ninguém respondeu pela sua morte.

Esta é a vida sem retoques na periferia da cidade grande.

Autor: Ivam Galvão

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